reparar infidelidades

A vida humana forma um conjunto entre esses dois grandes mistérios do nascimento e da morte. Muitas existências, contudo, são incoerentes, parecem-se a esses romances pretensiosos que começam com narrativas fantásticas e períodos pretensiosos e terminam perdidos na mediocridade ou na infidelidade. Outras, em sentido diverso, vão crescendo progressivamente, mesmo alquebradas por derrotas e malogros, e pouco a pouco, ganhando força e elevação, culminando heroicamente no cimo da santidade. Entre elas bem poderíamos lembrar a de Davi, homicida e adúltero; a de Pedro, o apóstolo negador e covarde; a da Madalena, pecadora pública; a de Paulo, perseguidor pertinaz; a de Agostinho, sensual e fornicador; e a de tantas outras menos conhecidas.

Eles souberam recuperar o tempo perdido e reparar a falta de correspondência à graça, a duplicidade de uma vida dividida ou o abuso e esbanjamento dos dons recebidos do Espírito Santo.

Alguns corações desconfiados imaginam que já não poderão subir ao grau do qual caíram por sua contínua infidelidade ao espírito Santo. Eles não levam em conta a profunda misericórdia e longanimidade divinas: Deus é largo em perdoar (Cfr. Is 55,7-9) e a sua misericórdia plenifica a terra (Sl 33,5).

O autor francês Proust - na sua conhecida obra “A la recherche du temp perdu” - convida-nos a “recuperar o tempo perdido“. Mas poderíamos perguntar: não será isto tão impossível como pretender fazer voltar para trás as águas do rio que já diluíram nas ondas do mar? Será que existe um segredo que possa realizar tamanho prodígio? Esse segredo realmente existe: é o amor, um amor que se aprofunda na dor, no arrependimento íntimo, na intensidade da reparação: Davi, o adúltero e homicida, expressou esse segredo nos seus salmos penitenciais impregnados dos mais sentidos lamentos de pesar por ter pecado. Santa Madalena, mulher da vida, soube recuperar o seu tempo numa existência penitente, mostrando-nos como transformar a lembrança do pecado em mortificação generosa… São Pedro fez o mesmo com aquelas lágrimas de arrependimento que duraram a vida inteira. Santa Teresa, a freira metida no desleixo religioso e na tibieza, também o fez, com os seus protestos de amor: “Senhor, que numa hora amando, apague tantos anos que passei fingindo”. E Santo Agostinho, filósofo petulante e mulherengo, ministrando-nos a lição magistral dessa arte de recuperar o tempo perdido: Para os que amam a Deus tudo coopera para o bem, inclusive os pecados (Cfr. Rm 8,28). Ele soube acrescentar ao pensamento de Paulo algo que tem servido de consolo e ajuda a milhares de pecadores ao longo da História: etiam pecata também os pecados contribuem para o nosso bem, se são como o estopim que acende uma grande labareda de amor.

Nunca nos desanimemos: que a lembrança dos nossos erros e pecados não seja uma fonte de temores e remorsos, mas um ponto de ignição de um grande incêndio de amor, Deveria ser como aquela prodigiosa “máquina do tempo”, inventada pela ficção científica, que consiga, com a intensidade do amor, - segundo o desejo de Teresa de Ávila - realizar o milagre de recuperar o tempo perdido, apoiando-nos na misericórdia de Deus. Deus é rico em misericórdia (Ef 2,4). E esta é uma tarefa que o Doce Hóspede da alma vai operando mansamente no fundo do nosso ser, fazendo-nos compreender que para os que amam a Deus todo remorso, todo arrependimento, “todo temor está contido no amor e que a caridade perfeita expulsa o temor”.

Felizes são os que andam pelos caminhos abertos pelo Amor Personificado, que é o Espírito Santo!

Intensificar o amor significa, em termos concretos, estreitar as nossas relações com o Espírito Santo, sendo fiéis às suas moções nas nossas práticas de piedade, na oração, na recepção diligente dos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, no exercício da presença habitual de Deus… Na luta ascética diária… É preciso lutar, abandonar-nos ao Divino Consolador não significa passividade ou uma espécie de “quietismo”, de “providencialismo” comodista, que fomenta a preguiça e a indolência. O amor é sempre diligente. A palavra diligência provém de uma raiz latina - diligere - que significa precisamente amar.

“Os santos - diz Santo Ambrósio - levantavam-se das suas quedas com muito mais decisão de travar novos combates, a ponto de que, longe de esmorecer o passo, redobravam a velocidade da corrida”

Há uma oração conhecida em alguns ambientes religiosos, muito consoladora, em que se pede a Deus que nos conceda a graça de reparar nossas infidelidades ao Espírito Santo, através de um triplo pedido:

“Meu Deus, tende comigo a misericórdia e a liberdade de fazer-me reparar, antes da minha morte, todas as graças infeliz e incessantemente perdidas.
Fazei que chegue ao grau de mérito e de santidade para o qual vós me destinastes de acordo com o Vosso primeiro projeto e que eu tive a desgraça de frustrar com minhas infidelidades.
Tende também a bondade de reparar nas almas as perdas da graça que por minha culpa elas hajam sofrido”

Quando sintamos o peso da nossa falta de correspondência aos toques do Paráclito, também nós podemos fazer esta oração pedindo-Lhe sentidamente que nos dê a paz, convivendo com as nossas falhas e reconstruindo a nossa vida com os escombros das próprias ruínas espirituais.

(A força e a suavidade do Espírito Santo - Dom Rafael Llano Cifuentes)

4 Comentários para “Reparar nossas infidelidades e recuperar o tempo perdido”

  1. Marcela Diz:

    Que possamos estar sempre em sintonia com o Amor Personificado, e que Ele nos inspire cada vez mais e mais a sermos um canal - seja em nossos atos, em nossas partilhas, ou nas linhas deste espaço -, um canal de seu amor!
    E se hoje posso ser esse canal, uma das responsáveis é você, que além de “conselheira”, é uma ótima professora!…rs…

    Parabéns pelo novo espaço… está lindo!
    Que Deus continue a abençoá-la dentro e fora de seu Ministério para que você continue a “perfumar” todos ao seu redor…

    “O amor é o perfume das almas” - Dom Hélder Câmara

  2. admin Diz:

    Obrigada querida, linda e abençoada intercessora de Jesus - e por total misericórdia dEle -, nossa também! rs…
    Saiba que o maior exercício espiritual consiste em servimos o irmão, mas não só aquele que necessita, como também os que Jesus nos confiou por eles sermos amados.
    Eu te amo de todo meu coração e alma! Neste caso, atingimos assim, o maior dos Mandamentos: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”.

    Glória a Deus pelo seu Ministério!
    Glória a Deus pela sua amizade!
    Glória a Deus!!!

  3. Erick Sávio Diz:

    Paz e Bem santa pessoa

    Seu blog já foi adicionado em nossa mais nova lista de blogs católicos, informamos que a cada atualização, seu blog estará sendo mais amplamente divulgado.

    Para nos ajudar a divulgar outros blogs e até mesmo o seu, pedimos que você coloque o nosso link e dos demais membros de nosso site em seu blog, assim conseguiremos alcançar nosso objetivo, que é o de divulgar todos os blogs católicos da web.

    MUITÍSSIMO OBRIGADO POR VOCÊ TER ACEITADO PARTICIPAR DE NOSSO PROJETO. FICAREMOS MAIS FELIZES SE SOUBERMOS QUE NOSSA MISSÃO ESTA SENDO FEITA.

  4. Raquel do Carmo Diz:

    Querida,

    Dizer que é coincidência ter lido aqui sobre a obra de Proust e toda a questão principal do texto em relação ao tempo perdido seria uma grande ofensa a providência de Deus. A confirmação é sempre uma graça de que o Pai realmente nos fala diretamente ao coração.
    Parabéns pelo novo espaço, por sua dedicação e seu serviço.

    Beijão!!! Deus te Abençoe sempre…

Trackbacks/Pingbacks

Deixar um comentário

RSS | XHTML | CSS