O Domingo de Ramos
4 de abril de 2009

No Domingo de Ramos, é lida uma passagem tirada do Evangelho de João: “No dia seguinte, a grande multidão que tinha ido para a festa ouviu dizer que Jesus estava chegando a Jerusalém. Então apanharam ramos de palmeiras e saíram ao encontro de Jesus, gritando: “Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor, o rei de Israel!” Jesus, encontrando um jumentinho, montou nele, como está dito na Escritura: “Não tenha medo, cidade de Sião. Eis que o seu rei está chegando, montado num jumentinho!” Nesse momento, os discípulos não entenderam o que estava acontecendo. Mas quando Jesus foi glorificado, eles se lembraram que haviam feito com Jesus aquilo que a Escritura dizia (12, 12-16).
Pode parecer estranho começar aclamando a Cristo como rei e vencedor, mas a Escritura não conhece a melancolia. O que houve com a paixão foi, de fato, uma vitória, pois Jesus venceu a morte, e superou o medo da morte. Isto explica por que nós o contemplamos enquanto ele estava prestes a entrar, de livre vontade e com coragem, na cidade que tramava contra ele, e que iria crucificá-lo.
Este episódio foi narrado por João em seu Evangelho, com riqueza de detalhes. Eis, com clareza, as circunstâncias do fato: a multidão tinha ido a Jerusalém para hebraica da Páscoa, que deveria ser celebrada dentro de poucos dias.
Os elementos vivos do discurso são três: a MULTIDÃO, JESUS e os DISCÍPULOS.
– A MULTIDÃO, muito numerosa, era composta de gente boa, simples, devota; gente que tinha ido a cidade santa com alguns dias de antecedência para “purificar-se”, isto é, viver a Páscoa em toda a sua pureza cultural, ritual e moral.
Esta gente padecia dos males de todos os tempos, que são sempre os mesmos: doenças, pobreza, desemprego, dramas de família. Sofria também por causa da opressão política que subjugava o país, da excessiva opressão fiscal, corrupção e outros tantos males que contaminam a terra. Estes sofrimentos faziam com que as pessoas esperassem por algo maior e melhor. A multidão estava pronta para entusiasmar-se.
A notícia de que Jesus havia ressuscitado seu amigo, Lázaro – o fato está narrado no capítulo 11 do mesmo Evangelho de João –, não podia senão reacender os sonhos messiânicos, e aumentar o desejo de rever Jesus, após um longo tempo em que ele se havia retirado, evitando-se mostrar-se em público.
E, de repente, eis que a multidão fica sabendo que Jesus vai subir a Jerusalém para a festa. Ele já tinha estado na cidade santa outras vezes, mas desta vez, que será a última, ele lança mão de um gesto inaudito, audaz, que só pode atrair perigos. Poucos dias antes, o apóstolo Tomé, ao perceber que Jesus tinha a intenção de ir à Betânia, que fica na estrada de Jerusalém, tinha exclamado: “Vamos nós também para morrermos com ele” (Jo 11, 16), porque ele tinha compreendido que a cidade vizinha era um verdadeiro reduto de ameaças para o Mestre. Mas Jesus chegou, desafiando a ordem dada pelos chefes dos sacerdotes e fariseus, segundo a qual todos eram conclamados a denunciar sua presença na cidade, a fim de que fosse possível prendê-lo.
Ele enfrentou, pois, o perigo. E a multidão, ao vê-lo, ficou comovida, correu ao seu encontro com entusiasmo, estendendo pelo chão ramos de oliveira. A palma, desde a Antiguidade, era um sinal de vitória, e era agitada em algumas festas hebraicas para aclamar a Deus, o Deus do céus e da terra, o Deus que salva o seu povo.
Ora, esta festa foi improvisada pela multidão que estava postada ao longo do caminho, para honrar Jesus, que tinha a fama de ser o representante de Deus. As pessoas gritavam “Hosana!”, que significa: “Dá-nos Senhor, a tua salvação, a tua vitória”; e ainda: “bendito aquele que vem em nome do Senhor!”
A acolhida feita a Jesus, suas aclamações como rei e Messias, não era uma mera exaltação religiosa; era uma referência precisa às expectativas culturais e sociais do povo, que não tinha medo de “Hosaná-lo” em público, em plena capital, debaixo dos olhos das autoridades, porque já estavam exaustos pela política feita na pele dele por homens que moravam em longínquas paragens. A multidão queria alguém em cujo poder ela pudesse confiar inteiramente.
– O que fez JESUS? Ele não se subtraiu a esta manifestação, como já tinha feito uma vez na Galiléia, após a multiplicação dos pães, quando o povo queria proclamá-lo rei.
Ele teve um gesto de humildade, nada falou, ficou calado. Mas em vez de entrar na cidade a pé, ele preferiu montar num jumentinho, que é o mais humilde dos animais, um animal de serviço, para dar a entender que a sua relação não provém da guerra ou do domínio, mas do serviço.
– Os DISCÍPULOS, porém, “não compreenderam”. Por um lado, eles viram que Jesus não esfriou o entusiasmo do povo, como eles pensavam que ia acontecer, pois de outras vezes já o tinham visto esquivar-se das manifestações de arrebatamento. Por outro lado, viram que Jesus não deu livre curso à exaltação. Talvez algum discípulo esperasse que ele se aproveitasse daquela ocasião para pôr-se à frente de um movimento popular, e restaurar o reino de Israel, levantando-se contra os tradicionais inimigos dos hebreus.
Os apóstolos intuíram, de maneira geral, que havia começado uma segunda etapa na vida de Jesus. Ante, na primeira fase da sua vida pública, ele tinha multiplicado os gestos pela libertação do homem, tinha curado, tinha feito milagres, tinha vencido as potências adversas. Era a parte que agradava a eles, e que nos agrada também, pois é a parte mais fácil de entender. Mas na segunda etapa da sua vida – que teve início no Domingo de Ramos, não fez mais nenhum milagre, nenhum discurso, não se defendeu mais.
Com efeito, ele aceitou o sentido religioso do entusiasmo da multidão que o aclamava, mas não aceitou o entusiasmo político, fazendo assim uma distinção que os apóstolos não foram capazes de entender. Só muito mais tarde é que eles iriam compreender que, entrando em Jerusalém naquele dia, Jesus tinha-se revelado como o Rei messiânico, o Senhor da história, mas um Senhor humilde e servidor da humanidade.
É muito importante observar que Jesus entrou em Jerusalém como um homem livre, calmo, senhor de si, sereno. Livre porque não estava preso por nenhum condicionamento humano, não temia ninguém, não temia nem mesmo a morte. Sua liberdade é a liberdade soberana que todos nós gostaríamos de ter. Ser livre é podermos ser inteiramente aquilo que nós somos, na verdade de nós mesmos: não ter medo, por causa disto, do que os outros possam dizer ou fazer de nós. Somente uma existência livre é capaz de amar, de se dedicar, e de se entregar como um dom.
O mistério de Jesus que se ia revelando, mistério de humildade, de sofrimento e, depois, de glória, também será o mistério da nossa vida, se soubermos aceitar este mistério, e se formos capazes desta experiência, na qual se penetra pouco a pouco.
É o mistério – como diz são Paulo – “escondido a todos os poderosos deste mundo; se não fosse assim, eles não teriam crucificado o rei da glória”.
É o mistério – como diz o evangelista Mateus – “revelado aos pequenos e aos homens simples”, àqueles que se encontram em situações de sofrimento e de opressão, e que percebem a verdadeira face de Deus.
Mas o discurso da paixão e da cruz, realidade inevitável na vida de cada um de nós, não é o primeiro, nem o último passo: ele está no meio, entre dois momentos positivos de início e de conclusão, de criação e de definitiva salvação. A cruz não é a última palavra, e por causa disto é possível sofrer e, ao mesmo tempo, ficar alegre.
(Reencontrando a si mesmo - há um momento que devemos parar e procurar; de Carlo Maria Martini – Cardeal, arcebispo de Milão e ex-reitor do Pontifício Instituto Bíblico de Roma)







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