Emoções, imaginação e memória, são as áreas de influência direta do demônio em nossa alma
2 de março de 2009

O ponto de contacto entre a capacidade do conhecimento humano e os demônios é a fantasia. Os demônios provocam em nós imagens da fantasia, ou fazem-nos sonhar enquanto dormimos. Como possuem um corpo, os demônios também estão ligados a objetos corpóreos, através dos quais eles agem sobre a fantasia. Provocam imagens de coisas visíveis na alma do homem, e de acordo com sua natureza de thymos (parte emocional da alma, a parte excitável, de onde surgem as emoções violentas, como a ira, o ódio e a inveja) eles fazem estas imagens ser acompanhadas de violentas emoções.
Freqüentemente utilizam-se de nossas lembranças, e então provocam emoções com as imagens da memória, através das quais podem impelir-nos na direção intencionada. Seu instrumento usual para agir sobre nós são os maus pensamentos. Com freqüência os maus pensamentos são identificados com os demônios, de tal forma que nem sempre se pode saber se os maus pensamentos são eles próprios os demônios ou se provocados pelos demônios.
A luta com os demônios realiza-se sobretudo como luta com os próprios pensamentos, onde trata-se sempre de pensamentos carregados de afetos, portanto nunca pensamentos puramente intelectuais. Pois só os pensamentos de caráter emocional é que são atribuídos aos demônios. Os pensamentos que nos são inspirados pelos anjos fazem indagações a respeito das coisas, por que elas foram criadas, para que servem, qual sua natureza e o que elas simbolizam. Os pensamentos puramente humanos só podem reproduzir no espírito a forma de uma coisa. Os pensamentos provenientes dos demônios sempre vêem as coisas com paixão e emoção. Eles consideram, por exemplo, como podemos possuir as coisas, que prazer elas proporcionam, ou se podem atrair para nós a fama.
Os demônios lutam contra o homem de diferentes maneiras. A maneira de sua luta depende da situação de cada um.
As coisas externas, portanto, podem ser uma tentação para o homem. O “demônio da cobiça” tenta o homem pelo dinheiro. Em si o dinheiro não é mau. Mas os sentimentos que o dinheiro provoca no homem podem ser inspirados pelo demônio da cobiça. O mesmo acontece com outras coisas. Quando sucede um contratempo a alguém, por exemplo quando um instrumento se quebra, esta é uma ocorrência inteiramente normal. Mas a reação a esta ocorrência pode ser provocada por um demônio. Quando alguém reage com ira, para os monges é o “demônio da ira” que está se fazendo presente. Ou alguém dá uma topada em um obstáculo no caminho. O obstáculo poderia ter sido colocado no meu caminho por um demônio, para fazer-me cair em aborrecimento, ou para me afastar de algum bom propósito. As coisas nada têm de demoníaco, mas elas podem provocar em mim reações que tiram-me inteiramente do equilíbrio e que me impelem para uma determinada linha de pensamento e de ação.
O que importa é sempre a maneira como o homem reage aos acontecimentos externos. Quando nós reagimos com paixão, estamos deixando nos influenciar por um demônio. Quando vemos as coisas à luz dos próprios desejos e emoções, quando, portanto, lançamos sobre as coisas nossas projeções, então os demônios atuam sobre nós através das coisas. Eles nos enganam e nos matêm presos por meio das coisas. Mas quando, ao invés, nós vemos as coisas e os acontecimentos externos à luz de Deus, como vindos de Deus, pensados por Deus e a nós confiados, então tudo pode servir para a salvação.
Com freqüência os demônios se utilizam também das pessoas. Depende de nossa reação se nos deixamos atacar e levar à raiva e à ira, ou se aceitamos o outro assim como ele é. Neste último caso nós conservamos o equilíbrio e o outro em nada nos perturba.
Os pensamentos são imagens que nossa razão constrói dos objetos do mundo exterior. Portanto os demônios não podem por si mesmos produzir pensamentos no homem, mas somente fazer ligação com coisas ou pessoas vistas e percebidas.
É sobre as coisas ou pessoas que surgem em nosso espírito que os demônios podem ter influência. Quando nos interrogamos por que pensamos justamente neste ou naquele acontecimento, muitas vezes nós não conseguimos encontrar uma resposta. O pensamento simplesmente aparece em nossa mente. Muitos pensamentos parecem não servir para nada, eles apenas provocam em nós uma disposição de raiva ou de ira. Nem todos os pensamentos são provocados pelos demônios, muitos surgem também através do próprio homem. Mas as lembranças que vêm acompanhadas de ira ou desejo acima do normal, estas precedem do demônio.
Os pensamentos bons e salvíficos são provocados pelos anjos, os prejudiciais, pelos demônios
Os pensamentos exercem influência sobre a disposição e sobre toda a atitude do homem. Por isso é importante saber quais pensamentos que podemos admitir em nós e quais os que devemos combater e cortar.
Uma modalidade de pensamento são as lembranças. Quando nos lembramos dos sentimentos e atitudes do passado, o demônio desperta em nós os sentimentos e atitudes de então. Uma recordação que tenha colorido emocional se explica por uma experiência que no passado foi acompanhada por violentas emoções.
As experiências que provocam fortes emoções no homem possuem um efeito destrutivo, se não forem assimiladas. Os demônios conservam abertas as feridas do passado, e com sua lembrança eles despertam novamente as emoções prejudiciais, sobretudo azedume, tristeza e desânimo.
O sonho é a porta de entrada preferida pelos demônios
Em sua luta contra os homens os demônios utilizam-se das imagens da fantasia e do sonho, das visões e alucinações. Depende de qual parte da alma eles queiram atacar. Quando querem atacar a parte dos desejos, eles apresentam à pessoa, em sonhos, lautos banquetes ou mulheres nuas. Quando querem combater a parte emocional, então aparecem em sonhos, ou também durante o dia, como serpentes, leões e escorpiões. Às vezes provocam um barulho infernal para intimidar alguém e provocar-lhe medo.
Os demônios, portanto, procuram saber quais os lados fracos da pessoa, suas inclinações e seus apegos, amplificam-nos sem que a pessoa perceba. De maneira quase insensível eles vão escravizando o homem. Escondem-se por trás de idéias, inclinações e necessidades. O mal apresenta-se com máscara de inocente, como uma pequena fraqueza ou como uma inclinação. E não obstante ele é capaz de tornar o homem cego para a realidade, torná-lo cego também para a própria verdade.
(Livro: Convivendo com o mal - A luta contra os demônios no monaquismo antigo, de Anselm Grün)







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