Discernimento: O dom mais necessário
29 de maio de 2009

Há alguns anos, alguns líderes de um dos maiores grupos de oração da nossa diocese decidiram iniciar uma nova igreja. Por vários meses, sistematicamente, vinham pregando abertamente contra alguns dogmas e ensinamentos da Doutrina Católica. “De hoje em diante, estamos deixando a Igreja Católica; quem quiser nos seguir, nos acompanhe”, disse um daqueles líderes. Foi presenciando aquele doloroso acontecimento que entendi qual é o dom mais necessário para quem segue Jesus, especialmente para os que estão à frente do rebanho: o discernimento dos espíritos. Com Matatias aconteceu o contrário. Quando o rei Antíoco quis obrigar todos os povos a se entregarem à idolatria, Matatias responde aos seus enviados: “Ainda mesmo que todas as nações que se acham no reino do rei o escutassem, de modo que todos renegassem a fé de seus pais e aquiescessem às suas ordem, eu, meus filhos e meus irmãos, persevaremos na Aliança concluída por nossos antepassados. Que Deus nos preserve de abandonar a lei e os mandamentos! Não obedeceremos a essas ordens do rei e não nos desviaremos de nossa religião, nem para a direita, nem para a esquerda” (I Mc 2, 19-22). Disposto a dar tudo e perder tudo por amor à sua fé, em altos brados, elevou a voz na cidade: “Quem for fiel à lei e permanecer na Aliança, saia e siga-me” (I Mc 2, 27).
Dentre os nove dons carismáticos de poder, o discernimento dos espíritos é o mais necessário, porque nos revela qual voz está nos falando: a voz de Deus, a da natureza humana ou a do Malígno. Quando agimos sem discernimento, atraímos grandes desgraças sobre nós e sobre aqueles que o Senhor colocou sob os nossos cuidados. Não é por nada que a Palavra de Deus exorta: “Todo homem prudente age com discernimento” (Pv 13, 16).
Por que aqueles líderes começaram a pregar contra alguns dos mais importantes ensinamentos da Doutrina Católica? Descobrimos que eles estavam fazendo estudos bíblicos com um pastor de uma igreja protestante. Não raro, algo nos parece reto e agradável a Deus, mas não o é: “Os caminhos do homem parecem retos aos seus olhos, mas cabe ao Senhor pesar os corações” (Pv 21, 2). Em contato com aquele homem, aqueles líderes pareciam estar crescendo na fé e no conhecimento de Deus. Nem tudo, porém, o que aparenta ser bom o é de fato. Daí a necessidade de discernir os nossos sentimentos e pensamentos, a fim de rejeitar tudo aquilo que não esteja de acordo com a Palavra de Deus e os ensinamentos da Igreja. Como explicar a rejeição da fé católica e a multiplicação dos falsos profetas que pregam a chegada de uma Nova Era e o fim do Cristianismo? Mais uma vez o Diabo, aquele que se atravessa no meio, está em ação. Sua missão é semear a divisão, a fim de dispersar o rebanho de Cristo.
Somente através do dom do discernimento dos espíritos poderemos saber o que é bom e o que é mau aos olhos de Deus:
O homem não pode por si mesmo decidir o que é bom e o que é mau - não pode ‘conhecer o bem e o mal, como Deus’. Sim, no mundo criado, Deus permanece a primeira e soberana fonte para decidir sobre o bem e o mal, mediante a íntima verdade do ser, a qual é reflexo do Verbo, eterno Filho, consubstancial ao Pai.
(CARTA ENCÍCLICA. Dominum et Vivificantem. Sobre o Espírito Santo na vida da igreja e do mundo. João Paulo II. Op. cit., No. 36. ap. 42)
Quem age com discernimento, sabe quando Deus fala e sabe também quando fala o inimigo, aquele que não cessa de sussurrar coisas vãs aos nossos ouvidos. São Bento, assolado por uma fortíssima tentação, a afugentou invocando o poder da Cruz de Jesus: “A Cruz Sagrada seja a minha luz. Não seja o Dragão o meu guia. Retira-te, Satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces. Bebe tu mesmo os teus venenos”. Como São Bento foi capaz de identificar que era o demônio quem lhe sugeria tais coisas? Através do discernimento dos espíritos.
Também o Diabo é conselheiro! Infelizmente, não são poucos os que o ouvem. Um jovem neoconvertido confidenciou-me que quando era escravo das drogas muitas vezes pensou no suicídio como única solução para se ver livre daquela escravidão. Certamente era o próprio demônio quem o estava aconselhando. Muitas vezes a serpente infernal usa de pessoas à nossa volta para nos sugerir coisas vãs. Por exemplo, alguém nos convida para sair, justamente quando estávamos nos preparando para ir à missa. Gostaríamos de fazer uma oração antes da refeição, mas alguém da nossa família nos intimida com um olhar ameaçador. Um colega sugere que olhemos para uma mulher sedutora ou um homem sedutor. Um sacerdote afirma que a oração não resolve nada. Um pai incentiva o filho a ter relações pré-matrimoniais. Uma amiga aconselha o aborto. Um colega de trabalho nos ensina como roubar. Um político corrupto instiga um colega a corromper-se, e assim por diante.
Outras vezes é o respeito humano que compromete nossa capacidade de discernir o que agrada a Deus. Buscando agradar aos homens, facilmente renunciamos à vontade de Deus. Para não sermos chamados de desiquilibrados, radicais, fanáticos, malucos, carolas, somos capazes de nos unir àqueles que não suportam as exigências do Evangelho. Numa ocasião, eu estava num ônibus interurbano, com uma garota sentada a meu lado. Senti que o Espírito Santo me movia a falar de Jesus para aquelas pessoas ali dentro, mas uma voz me pertubava: “O que esta garota vai pensar de você?”. Depois de muita luta interior, levantei-me e anunciei a Salvação em Jesus para aqueles passageiros. Após a pregação, Jesus revelou a cura de uma pessoa diabética. Por pouco, o medo de ser rotulado de fanático e curandeiro não me deixa proclamar as maravilhas de Deus. Passada a prova, uma grande paz e uma forte alegrai invadiram meu coração.
É típico de Satanás apresentar uma mentira como se fosse uma verdade. Para vender cigarro, a indústria do tabaco contrata, a peso de ouro, profissionais de marketing. Eles têm a missão de propagar a idéia de que o cigarro é um bem de consumo que traz vantagens. Por meio de imagens e palavras associam o cigarro ao conceito de sucesso, beleza, inteligência, habilidade. Na verdade, todos sabem que o cigarro causa câncer e que, no mundo inteiro, milhões de pessoas morrem anualmente por causa do tabagismo. Sobre a arte de discernir, a Igreja ensina:
O Espírito Santo nos faz discernir entre a provação, necessária ao crescimento do homem interior em vista de uma ‘virtude comprovada’, e a tentação, que leva ao pecado e à morte. Devemos também discernir entre “ser tentado” e “consentir” na tentação. Por fim, o discernimento desmascara a mentira da tentação: aparentemente, seu objeto é ‘bom, sedutor para a vista, agradável (Gn 3, 6)’, ao passo que, na realidade, seu fruto é a morte.
(Catecismo da Igreja Católica)
Não é de admirar que o pecado sempre nos parece algo apetitoso, vantajoso. Quando se joga uma brasa incandescente diante de um sapo, imediatamente ele a engole. O sapo não sabe discernir entre o que é bom e o que é mau. Convencido de que o que vê é algo agradável, um alimento apetitoso, acaba morrendo, ludibriado pela falsa aparência do objeto que o seduziu. A Palavra de Deus afirma: “Aquele que é crédulo demais tem um coração leviano; sofrerá prejuízo” (Eclo 19,4). Para capturar suas presas, algumas plantas carnívoras são adotadas de cores e perfumes que exercem uma atração irresistível sobre os insetos. Tão logo o inseto pousa sobre a superfície da flor de uma destas plantas, ela se fecha e o inseto é morto.
Sem discernimento não há como cumprirmos os desígnos de Deus para a nossa vida, simplesmente porque não sabemos se é Deus quem está nos falando. Quantas vezes acabamos comprando coisas que não correspondem às nossas expectativas, porque quem no-las vendeu mentiu para nós. Não é à toa que o rei Salomão suplica a Deus que lhe conceda o mais precioso de todos os dons: “Dai, pois, ao vosso servo um coração sábio, capaz de julgar o vosso povo e discernir entre o bem e o mal” (I Rs 3, 9).
Seja na hora de continuar um namoro, escolher um emprego, um filme para assistir, um livro para ler, um tema para pregar, um lugar para nos divertir, ou as pessoas com quem andar, qualquer decisão a tomar, enfim, é o discernimento dos espíritos que nos põe em perfeita conformidade com a soberana vontade de Deus. O que fazer para receber o dom do discernimento dos espíritos? Segundo o jesuíta Juanes Benigno:
Não nos esqueçamos do pensamento de São João da Cruz: O Espírito Santo sensibiliza e capacita de maneira especial para o discernir, quase de um modo co-natural, na medida em que somos dóceis ao Espírito, nos entregamos à sua ação e aderimos mais profunadamente à pessoa de Jesus.
(JUANES, SJ, Benigno. Intrudução aos Carismas. São Paulo: Loyola, 2001. p. 144)
Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer tem um peso de eternidade. Queiramos ou não, todas as nossas escolhas nos aproximam ou nos afastam do Céu. Elas são como pedras que pavimentam nossa estrada para o Céu ou para o inferno. Se nossas escolhas são discernidas com o auxílio do Espírito Santo, aquele que perscruta as profundezas de Deus, então andaremos com segurança na estrada que conduz à Jerusalém celeste. Esta estrada é o próprio Jesus.
(A Vitória pela Fé - confiança inabalável nas promessas de Deus; de Celso Deretti)







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