A comunidade e o sagrado
27 de junho de 2009

Não é apenas nas pessoas individuais que podemos sentir o Sagrado. Muitas vezes é também nas comunidades. Quando uma comunidade celebra o culto divino, às vezes o Sagrado transparece. Algumas pessoas sentem que determinadas comunidades possuem uma irradiação que lhes faz bem. Elas têm a impressão de que uma permanência mais prolongada nestas comunidades haveria de ajudá-las a encontrar seu próprio ponto de referência. Evidentemente, mesmo aqui existem muitas projeções que podem levar a decepções. Pois nenhuma comunidade é unicamente santa. A comunidade também é marcada pelas sombras, pela banalidade e mediocridade.
Muitas pessoas que vêm para a nossa casa de hóspedes, ou que desejam passar conosco “uma temporada no convento”, escrevem-nos que sentiram junto a nós uma espécie de cura. Saber disto nos faz bem. Pois nós mesmos não nos experimentamos de maneira nenhuma como santos. Sempre de novo também temos de confrontar-nos com nossos lados sombrios. Se os hóspedes projetam sobre nós o seu anseio pelo Sagrado e por isso experimentam o Sagrado em nós, ou se realmente existe algo de sagrado que transpira de nossa comunidade, isto eu não ouso decidir. Provavelmente uma coisa e outra estão em jogo aqui: a projeção dos hóspedes, mas também algo de Sagrado que a comunidade carrega em si, pelo fato de estar todos os dias circulando em volta do Sagrado e vivendo exposta ao Sagrado.
Toda comunidade tem necessidade do Sagrado. Sem o Sagrado nenhum grupo é capaz de viver. Haveria de desintegrar-se. O Sagrado une em si os membros da comunidade. Isto nós experimentamos todos os dias em nossa comunidade monástica. Quando 100 monges convivem no mosteiro todos os dias, eles não conseguiriam suportar-se mutuamente se estivessem empenhados apenas com os seus sentimentos e com o esclarecimento de seus conflitos mútuos. Uma comunidade de pessoas que moram juntas e que sempre vivessem a refletir e a discutir sobre suas relações logo haveria de desintegrar-se. Faltar-lhes-ia o elo que as mantém unidas. E este elo é o Sagrado, algo que ultrapassa a comunidade. Como todos os dias nós nos reunimos conco vezes na igreja para louvar a Deus, para juntos cantar os salmos e celebrar o Sagrado mistério da Eucaristia, existe entre nós um elo que não se desfaz tão facilmente, como aconteceria por exemplo com os sentimentos ou com as estruturas. É o Sagrado que nos une e que nos mantém unidos.
Isso pode ser observado em grupos de juventude. Em todo grupo existe algo que é sagrado, algo que é tabu para todos. Algo que todos têm que observar. Com bastante frequência é o pressuposto inconsciente que parte de cada um. É alguma coisa sobre a qual não se discute, que simplesmente é sentida. Antigamente os jovens gostavam de sentar-se em torno da fogueira do acampamento cantando as suas músicas. O fogo era ali o ponto sagrado de referência que unia o grupo. Seria sem dúvida interessante pesquisar a love parade, que reúne tantos jovens na celebração comum de uma festa com muita música, corporalidade e um inebriante sentimento de comunidade. Poder-se-ia perguntar o que foi que uniu entre si os dois milhões de pessoas no festival da juventude em Roma no ano de 2000. O prefeito de Roma sentiu claramente que destes jovens do mundo todo emanava alguma coisa que fazia bem à cidade, que Roma nunca viveu dias tão tranquilos e tão pacíficos como os que foram proporcionados por estes inúmeros jovens reunidos em torno do Sagrado.
Também no casamento os cônjuges sentem que o Sagrado os une. Para muitos casais o Sagrado é aquilo que eles experimentam em seu amor. Seu amor não se reduz aos sentimentos que eles têm um pelo outro. Em seu amor eles sempre de novo estão em contato com algo que os ultrapassa, com algo que eles não possuem uma palavra para designar. É o Sagrado. Certamente é esta a razão por que em média os casamentos religiosos duram mais tempo do que os casamentos contraídos em um contexto não religioso. Os casais casados na igreja sabem que a benção de Deus repousa sobre o seu amor. Vão juntos para a igreja, para um lugar em que se voltam juntos para Deus, para uma meta que se encontra além deles mesmos. Celebram um sacramento de amor. Este sacramento mostra-lhes que seu amor é o lugar onde eles podem experimentar Deus, onde podem sentir o Sagrado. O sacramento lhes dá a sensação de que seu amor é alguma coisa precisosa, alguma coisa de santo, e que eles devem conviver com isto em atitude de atenção e respeito e não se deixar perturbar tão facilmente pelos conflitos do dia-a-dia. Evidentemente, o Sagrado também não é garantia de que o casamento seja bem-sucedido. Pois também o Sagrado pode volatilizar-se, deixar de ser percebido, perder-se.
Interessante é que hoje um assessor empresarial moderno também fala de sua firma como um “santúário”. Lance Secretan entende por santuário um espaço em que a alma cria asas e floresce, em que a convivência e o trabalho são marcados pela criatividade e a fantasia. Manisfestamente, até mesmo uma firma precisa de alguma coisa sagrada, de algo que seja sagrado para ela, que relativize a busca do lucro. Uma firma que não vise outra coisa senão controlar o andamento dos processos, termina por ficar estéril. O Sagrado permite que a alma respire e cria um espaço onde cada um se sente respeitado. Ele une mais as pessoas do que o lucro comum, cria um clima de liberdade, de prazer no trabalho e de alegria no intercâmbio de idéias, que leva as pessoas a novas paragens.
Qual é o ponto de referência de sua família, o elo que une o casal e os filhos? É o amor, que você experimentou como sagrado? É o mistério que lhe deu um lar onde você se sente em casa? O que é sagrado para você? Existe alguma coisa que vocês preservam em comum, que para vocês seja intocável?
Lance um olhar para os grupos de que você faz parte, para a sua firma, sua associação, o círculo de seus parentes. Você consegue descobrir aí alguma coisa de Sagrado que os mantêm unidos? Ou o elo do Sagrado se perdeu? Quais são os ideais comuns que vocês valorizam? Vocês têm sonhos comuns? Quais as recordações comuns que são para vocês fonte de vida e de união?
Tente ver com outros olhos sua comunidade (sua família, grupo, associação). Tente descobrir o elo que a sustenta. Tente identificar o Sagrado que lhes é caro e que os mantém intimamente unidos.
(A Proteção do Sagrado - Anselm Grün)







30 de junho de 2009 at 21:07
Com toda certeza as comunidades são terrenos férteis para que os carismas do Santo Espírito se manifestem e que seus membros produzam muitos frutos. O próprio Cristo viveu em comunidade e declarou: “Onde 2 ou 3 estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles”. É o próprio Jesus quem afirma que se manisfesta na unidade dos irmãos.
Maranathá, Vem Senhor Jesus!